quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Caio Fernando Abreu

Ando mergulhado no universo do Caio Fernando Abreu. Lendo seus livros, suas peças teatrais, criando em cima de seus personagens e agora devorando uma biografia escrita por sua grande amiga Paula Dip.
O livro é maravilhoso, abrindo e escancarando quem realmente era Caio Fernando Abreu, seus amigos, suas viagens e principalmente sua literatura.
Quando gosto muito de um livro, fico até preocupado e com medo que acabe, e leio devagar mas infelizmente não consigo me conter e parar de ler "Para sempre teu, Caio F.". Estou agora na página 181 e resolvi colocar aqui a carta destinada a Elis Regina (os dois eram amigos desde quando moravam em Porto Alegre - o livro inclusive tem uma foto linda deles juntos) que ele escreveu e enviou a Paula Dip. E
la disponibilizou na biografia e por sorte acabei a encontrando.

“Maninha, precisava ser agora?
Elis, quando eu soube, assim de imediato, não acreditei. Esse vício de eternidade que a gente tem. E logo você, bicho? Tão agitadinha, tão atrevidinha e cheia de vida. Fui ao banheiro lavar o rosto, molhar os pulsos e olhar bem a minha cara cansada de 33 anos. Quando saí e espiei em volta tudo continuava lá. Feito nada tivesse acontecido Lembrei duma história da mitologia grega. Contam que quando morreu Pan, o deus da música, alguns pescadores ouviram uma voz misteriosa gritar numa praia deserta: ‘O grande deus Pan morreu!” E nunca mais se ouviu falar dele. Hélice – como te chamava a Rita, acho que por causa daquela sua mania antiga de girar os braços enquanto cantava, em tempos de Arrastão – eu não sei o que estou sentindo. Depois do trabalho, saí a procurar pelas ruas do centro da cidade um sinal qualquer que confirmasse ou desmentisse tua partida. Não encontrei nada. As lojas não tocavam seus discos. Ninguém caminhava devagar. Não havia nenhuma melancolia específica no céu, além do cinza habitual. Só eu assobiava baixinho “Acender as velas já é profissão, quando não tem samba, tem desilusão”. (Vezenquando, só de sacanagem, você dizia ‘Quando não sou eu, é Nara Leão’, e dava aquela risada gostosa.) Então peguei um táxi e vim embora. Pedi para o motorista ligar o rádio, mas tocava Núbia Lafaiete. Você acharia engraçado. Pedi para ele parar antes de casa, comprei duas garrafas de vinho. Estou no meio da segunda. Pimentinha, que difícil que tá. Você tem que amar quem você ama agora, JÁ, você tem que começar a fazer tudo o que você quer porque a bruxa tá do lado esperando. Elis, eu também vou morrer nem sei quando. Antes eu queria tanto ser feliz. Embora nem saiba como é isso. Acendo uma vela branca procê ir embora numa boa. Abro as janelas e ponho bem alto você cantando ‘Primeiro Jornal’, porque é assim que quero te guardar, juntando tua voz matinal aos restos dos sons noturnos que ainda boiam na casa. Não tenho medo da morte. Tenho medo da vida. Baixinha, foi tão de repente... Mas ainda ontem, todo domingo de manhã eu ia ao cinema Castelo assistir você cantando no programa do Maurício Sobrinho, da Rádio Gaúcha. Você vinha com aqueles vestidos repolhudos cantar ‘Banho de lua’ e aquelas versões tipo Fred Jorge (Vixe, como tô ficando veio, guria!). No fim todo mundo aplaudia de pé, dançava e cantava junto. Depois, feito a Janis Joplin fez com Port Arthur, você saiu de Porto Alegre. Foi ser estrela na vida. Falavam mal, então como falavam: porque isso, porque aquilo, porque você chiava como carioca, que era metida que nem parecia ter saído dali do Partenon, que parecia que tinha Deus na barriga (descobri depois que você tinha mesmo, não na barriga, mas na voz). Nunca mais te vi ao vivo, só no finzinho do ano passado, no Anhembi. De repente você disse que queria falar com Deus. Eu me arrepiei. Parecido com quando você cantava ‘Atrás da porta’. Ou quando, naquele inverno comprido eu atravessava noites bebendo conhaque ouvindo ‘As aparências enganam’. Uma vez a Paula Dip bateu na porta enquanto você cantava e, mal abri, ela caiu no choro, porque tinha vindo contar-me coisas sobre esses enganos, essas aparências.
Maninha, precisava ser agora? Em pleno verão, o sol quase em Aquário. Sei que teu coração não aguentava mais tanta barra. Sacanagem... E juro que agora eu ouvi você rindo assim: quá-quá-rá-quá-quá. Tô sentindo um oco, Hélice. Tão ruim. O dia não conseguiu chover: eu queria agora chorar todo o choro que o dia não chorou por ti. Não consigo. Eu tenho a impressão de que poderia reconstituir, dias após dia, desde uma daquelas manhãs de domingo no Cine Castelo (que coisa mágica, eu tinha 12 anos, você 15) até estas duas da madrugada de hoje? Consigo não, Che. A gente, que é gaúcho, se entende. O tempo existe, Pimentinha, e passa, leva no arrastão as coisas e as pessoas que não morrem: ficam encantadas.
Y solo resta el silencio, un ondulado silencio...Nós te amávamos tanto, tanto. Guria. Até.

Caio Fernando Abreu"

domingo, 22 de novembro de 2009

Charlotte Gainsbourg e Beck

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Mostra Internacional de Cinema

Esse ano quase não assisti nada da Mostra de Cinema de São Paulo, por imcompatibilidade de horários. Bateu um saudosismo enorme e uma inveja de quem estava lá (especialmente do Marcelo!), principalmente porque eu sabia o quanto é prazeroso assistir de 3 a 4 filmes por dia. Enfim, pelo menos consegui ver algumas coisas interessantes e outras nem tanto:

I Love you Phillip Morris: O filme foi bastante comentado no Brasil por ter a participação do Rodrigo Santoro, reunir no elenco Jim Carrey e Ewan Mcgregor e ser uma trama gay. O filme é baseado numa história real e tem um roteiro incrível que vai da comédia ao drama a todo momento. A trilha também é muito boa com Nina Simone numa música que eu amo (To love somebody). Apesar de Jim Carrey ainda carregar alguns trejeitos de comediante, sua atuação é perfeita pro papel, assim como Ewan Mcgregor e Rodrigo Santoro.

London River: Adoro a atriz inglesa Brenda Blethyn. Desde que ela fez a mãe suburbana que descobria a filha negra em "Segredos e Mentiras" ela só fez filmes bacanas (O barato de Grace, Orgulho e Preconceito, Desejo e Reparação). Só de saber que ela fazia parte do elenco de London River fiquei interessado no filme e realmente ela é o filme. Fazendo a mãe interiorana e tradicional de uma moça morta em um ataque terrorista ela se demonstra forte o filme inteiro pra desabar no final em uma cena tocante.

Dzi Croquetes: O documentário é sobre o grupo (que dá título ao filme) e foi formado em plena ditadura militar com uma liberdade criativa e sexual nunca vista antes. Com um visual que me lembrou muito Secos e Molhados (Ney Matogrosso dá seu depoimento no filme), mas com um espetáculo que misturava humor e números de dança extremamente bem realizados e modernos pra época o grupo fez sucesso na Europa chamando atenção de grandes astros da época que nunca perdiam seus shows (Mick Jagger, Catherine Deneuve e Liza Minelli - que dá seu depoimento no filme e conta que tentou leva-los a Broadway, mas eles não quiseram). É bastante interessante o filme, não só por ter grandes nomes dando depoimentos, mas porque se trata de uma descoberta pra quem nunca tinha ouvido falar do grupo que é realmente lendário. Um detalhe interessante do filme está na direção, que é feita pela filha de um integrante da equipe técnica do grupo. No final do filme ela conta que o pai dizia que gay quando morria, virava purpurina, em seguida ela conta que o pai morreu e também virou purpurina, num momento bastante delicado e bonito do filme.

Voluntaria Sexual: O vencedor segundo a crítica da Mostra. Eu realmente não gostei. Achei interessante a estrutura do filme construída como se fosse um documentário e ao mesmo tempo com curtas metragens dirigidos pela protagonista do filme, mas o tema não me atraiu e a exploração de deficientes por paralisia cerebral durante todo o filme me causou mal estar.

Fish Tank: Bem interessante o filme, focando uma garota pobre de Londres que enfrenta uma vida sem perspectivas ao lado da mãe e da irmã. Achei interessante a comunicação entre as três mulheres da casa, sempre utilizando a agressividade ou a dança. Até nos momentos de ternura elas trocam xingamentos pesados, mostrando que é a única forma que elas (criadas por uma mãe despreparada e negligente) conseguem utilizar para se relacionar.

Cúmplices: Um filme francês que foge da narrativa linear para contar a história de um assassinato envolvendo um jovem casal. A estrutura do filme é bem interessante, desvendando aos poucos o crime e justificando no final o título do filme.

Eu matei minha mãe: É um filme francês de uma maneira que nunca vi antes. São poucos os filmes franceses que tratam as relações humanas com passionalidade. Geralmente os relacionamentos familiares focados nos filmes franceses são sempre frios e distantes (Ex: "Horas de Verão", "Um Conto de Natal") e o filme em questão pelo seu roteiro forte me remeteu imediatamente ao cinema espanhol, mas depois parando pra pensar relacionamento entre filho e mãe é em qualquer parte do mundo passional. É sempre uma relação de amor e ódio.
O filme mostra a dificuldade de sair da infância (onde a mãe é a figura central, a melhor amiga) e entrar para adolescência e fase adulta anulando-a de sua vida. Assim como dificuldade do filho em aceitar a mãe, há também a dificuldade da mãe em reconhecê-lo e aceitá-lo nessa nova fase da vida.
Um dos momentos mais tocantes pra mim é quando o filho diz coisas horríveis para a mãe e depois pergunta "O que você faria se eu morresse amanhã?", ela fica calada e depois que ele se vira e vai embora ela responde baixo "Eu morreria no dia seguinte."

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Peixe e o Cacto


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Programação completa da Satyrianas 2009: link

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Wes Anderson

Wes Anderson tem um estilo próprio, principalmente se formos analisar sua curta (e preciosa) obra. Seu estilo é composto por planos abertos, personagens egocêntricos, vaidosos e neuróticos, figurinos e cenografia kitsch e um humor bastante peculiar. Aliás, ele usa as situações cômicas e sem sentido para zombar do senso comum e das características dos personagens.

Wes Anderson também tem seus atores preferidos. Ele sempre convida Bill Murray, Angelica Houston e Owen Wilson (que além de trabalhar como ator, também atua como roteirista) para atuarem seus filmes.

Os três grandes filmes do diretor (incluindo um curta) são:



Os Excêntricos Tenenbaums (2001)

Primeiro filme do diretor que teve grande projeção, principalmente depois da indicação ao Oscar por melhor roteiro original. Apesar de tratar basicamente de erros, traições e desastres do passado de uma família, o filme acaba ficando leve pela excentricidade dos personagens e das situações criadas pelo diretor.

A Vida Marinha com Steve Zissou (2004)

O filme conta com a participação de Seu Jorge, que faz o personagem Pelá. Na época das gravações o cantor aproveitou os intervalos e fez um videoclipe da música "Tive Razão" e chamou Bill Murray e Wiliam Dafoe para uma pequena participação.


Viagem a Darjeeling (2007)

Último filme do diretor. Bill Murray que participou da maioria dos filmes do diretor faz apenas uma cena onde corre para pegar o trem. É considerado pela crítica o melhor filme do diretor (eu gosto bastante, mas ainda prefiro "Excêntricos..."). O curta "Hotel Chevalier" com Natalie Portman nua abre o filme.




domingo, 27 de setembro de 2009

Sempre tive uma certa resistência a Cássia Kiss. Colocava ela sempre na categoria de atriz intensa com respiração ofegante. Outro dia assistindo ao "Vitrine" na TV Cultura, vi uma entrevista com ela, onde o principal assunto era sua peça "O Zoológico de Vidro" de Tenessee Williams. Ela dizia sobre o tempo que ficou afastada do teatro e que mesmo não fazendo ela inseria na TV técnicas teatrais e isso não a deixava fora do ofício que mais gostava. Hum, tá aí a explicação da minha categoria! Hoje vi a peça e foi uma experiência bem interessante. A peça tem o preço mais acessível, trazendo um público diversificado (tinha uma menina atrás de mim abrindo e fechando a bolsa tantas vezes, que na hora tive que virar pra ver o porquê daquilo. Qual foi a minha surpresa ao virar? A menina estava retocando a maquiagem. No escuro do teatro!) que ria de maneira exagerada aos díalogos da peça. Riam sem perceber que havia algo pesado por trás daquelas palavras que soavam engraçadas. Depois no fim da peça foi aberto um debate com os atores, incluindo Cássia Kiss, que se mostrou aberta, mas cansada e com certo ar bláse. Em certo momento, ela fez questão de encerrar (com razão, pois as perguntas ou eram óbvias e repetitivas ou então eram direcionadas a detalhes técnicos que ela não tinha o menor interesse em responder), mas foi um díalogo bastante interessante em torno do processo de criação da peça, contrução do personagem, pesquisas que são essenciais durante os ensaios, como lidar com o ego, vaidade, conflito entre colegas. Entendi perfeitamente que a base dela como atriz é realmente o teatro. Sua intensidade na TV é proposital e de certa forma é até reacionária, por ir na contramão do que é feito e mesmo assim conseguir espaço cativo. É engraçado, pois lendo o programa da peça soube que o personagem feito por ela na peça, foi anteriormente interpretado por Beatriz Seagal. Uma atriz que assim como ela, é boa, competente, mas extremamente bláse.