segunda-feira, 27 de julho de 2009

Mayra Andrade

Depois de ouvir e viciar no disco novo da Mariana Aydar, acabei conhecendo Mayra Andrade, que é uma cantora de Cabo Verde que participa da faixa "Beleza". Acabei buscando coisas dela e além de descobrir que ela é muito linda, encontrei seus dois discos e gostei tanto. O que eu achei mais curioso foram as letras. Mesmo sendo o português a língua mais falada em Cabo Verde, Mayra Andrade canta de uma maneira bem diferente, não entendi muito bem, até que pesquisei e descobri sobre o crioulo cabo-verdiano, a língua originária do Cabo Verde que tem como base o português. Encontrei até a foto abaixo que mostra o aviso em portugês, mas o anúncio publicitário em crioulo cabo-verdiano.

Também encontrei algumas letras da Mayra Andrade e achei todas tão lindas(mesmo sem tendenr nada), como a de "Stória, Stória" (a música que eu mais gosto).

Dexâ-m bem kontâ-bu um stória
D-um amor ki nasi oji
Entri um seu ki ka tem stréla
I um rubera só ku pedra…

Tantu stória pa-m kontâ-bu
Di fórsa di sentiméntu
Di kodé d-um rabeládu
K-um mosinhu di Mindélu
D-es amor ki djuntâ-s petu
Pa tudu eternidádi…

Link do seu disco

Vale a pena ouvi-la. Suas músicas tem ritmos bem próximos do Brasil e a voz dela é muito bonita. Acabei achando também no youtube um vídeo de Mayra Andrade com Mariana Aydar. É muito bom, as duas cantam "A outra" do Marcelo Camelo num clima bem descontraído.



quarta-feira, 22 de julho de 2009

Luz Negra


Ah,q ansiedade!

O lançamento do DVD da Fernanda Takai, que é essencialmente o show do disco que ela gravou em tributo a Nara Leão vai ser lançado no fim do mês. Quando assisti ao vivo fiquei apaixonado, não só pelas músicas, mas pelo palco que é lindo (e depois lendo o blog da Fernanda, fiquei sabendo que ela, o John e a filha Nina fizeram parte do cenário em casa), a iluminação, além do cuidado que ela tem com o figurino. Um show impecável.

A ansiedade pra ter o disco e DVD na mão, se deve principalmente ao fato de que agora vou poder escutar as músicas que ela incluiu no repertório do show e não fazem parte do disco em homenagem a Nara Leão. As canções são “Ben” (que não se trata de uma homenagem oportunista ao Michael Jackson, já que o show já estreou há quase dois anos e já tinha a música no repertório), “There Must Be An Angel (Playing With My Heart)” uma música do Eurythmics que eu adoro e já foi gravada por Fernanda Takai para a trilha de um desfile do Ronaldo Fraga, “Ordinary World” do Duran Duran (uma das bandas preferidas da Fernanda), “Sweet Soul Revue” do Pizzicato Five (deve ter sido escolhida para entrar no repertorio depois da Fernanda ter feito um show com a vocalista da banda. Aliás, ela sempre citou a banda como uma de suas favoritas em entrevistas), “Sinhá Pureza” que é um carimbó e “Você já me esqueceu” (link pra ouvir) uma música linda que já foi gravada por Roberto Carlos.




segunda-feira, 20 de julho de 2009


Assisti domingo a peça “Gloriosa” com a Marília Pêra que é baseada na história real de Florence Foster Jenkins, uma cantora péssima que desafinava e assassinava as canções, mas não tinha a menor noção disso. O momento dramático de sua história foi quando ela conseguiu se apresentar no Carnegie Hall. Florence conseguiu lotar a casa de shows, mas não pelo seu talento, a platéia de mais de três mil pessoas era formada por curiosos que riam sem parar ao ouvi-la. No dia seguinte, a cantora teve finalmente consciência de que era péssima ao ler as criticas impiedosas ao seu respeito. Depois de um mês ela morreu.
O que me fez apaixonar pela história foi a pureza da personagem. Ela realmente não fazia idéia de que sua voz era um horror. Ela cantava com tanto prazer e felicidade que acreditava ser realmente uma boa cantora. A peça “Gloriosa” é bem engraçada (Guida Vianna, que eu adoro, vive três papéis na peça e rouba a cena sempre que aparece), mas ao mesmo tempo trata com delicadeza essa “falta de noção” que Florence tinha. Na cena que fecha o espetáculo, Eduardo Galvão (que interpreta o pianista gay que acaba se casando com Florence) fala que a cantora sempre acreditou cantar bem e em seu leito de morte ela passava sempre essa sensação, logo em seguida de sua fala surge Marília Pêra (dessa vez bem afinada) cantando como Florence acreditava cantar.

Consegui achar um trecho no youtube de uma música interpretada por Florence Foster Jenkins e é sensacional comparar com o trabalho de Marília Pêra. Ela soube interpretá-la com perfeição.




Da maior importância - Gal Costa

Essa música faz parte do disco Índia da Gal, que é um dos meus prediletos dela. Nessa fase da sua carreira quando Gil e Caetano estavam exilados, ela deixou a pscicodelia de lado e passou a incorporar em seu repertório ritmos regionais. A música "Da maior importância" foi composta por Caetano. Segundo a própria Gal, a composição surgiu quando ela e Caetano estavam sós em um determinado local e acabou surgindo uma energia sexual entre os dois. Como eles eram praticamente irmãos, Caetano ao invés de deixar rolar preferiu canalizar a energia sexual para compôr.
Achei essa imagem super rara dela no youtube e me apaixonei novamente pela música!



Acabei encontrando outro vídeo que mostra uma fase mais comercial da Gal, mas sem abandonar o canto visceral (ela na verdade ainda não estava tão comercial). A canção "Meu Doce Amor" foi composta pela Marina Lima em inicio de carreira (aliás, em 1977 elas eram bastante próximas e chegaram a ter um breve relacionamento que foi confirmado recentemente pela Marina em uma polêmica entrevista) e faz parte do disco "Caras e Bocas" que também tem composições de Rita Lee, uma versão feita por Caetano Veloso para uma música de Bob Dylan e uma composição em parceria com sua irmã Maria Bethânia que dá título ao disco. O vídeo de "Meu Doce Amor" é muito bom, parece ser uma gravação que vazou com o aúdio original, mas que com certeza deve ter sido exibida na época com um playback.

terça-feira, 14 de julho de 2009


Quando li em algum lugar dizendo que Liminha produziria o novo disco de Ana Cañas já fiquei aguardando com ansiedade. Gostei de Ana Cañas quando a ouvi, mas muito pouco do seu disco de estréia. A voz dela é linda, mas o disco me soou um pouco pretensioso. Ela parecia querer enfatizar a todo tempo sua veia jazzistica, mas as músicas em que ela fazia isso eram muito fracas, com letras ruins (sem esquecer da versão sonolenta pra “Coração Vagabundo”). As únicas que ouvi e me fizeram simpatizar com a moça foram “Devolve Moço” e “Cadê Você?” (que é muito boa). Depois a vi no especial do Cazuza onde ela interpretou “Carente Profissional” (uma canção que eu adoro na voz da Marina Lima) e acabei gostando mais dela.

Agora ouvindo o disco novo “Hein?” a parceria com o Liminha (que produziu o disco e ainda ajudou nas composições) fez realmente muito bem pra moça. Só pra lembrar, o Liminha é um produtor muito foda (produziu o melhor álbum dos Titãs – “Cabeça Dinossauro”, Marina Lina, Vanessa da Mata, Chico Science e Nação Zumbi entre outros) que sabe valorizar sempre o ponto forte dos artistas ajudando até nas composições. Com Ana Cañas tenho a impressão de que ele enxergou nela um lado mais roqueiro do que jazzistico. As canções de “Hein?” são bem mais próximas do rock. “Na multidão” que abre o disco é uma composição dela, do Liminha e Arnaldo Antunes (que faz uns vocais na música) é bem roqueira, assim como “Coçando” (com uma letra bem engraçadinha) e as que fogem desse clima vão pra uma pegada mais blues ou reggae (mas bem misturado sempre dando uma unidade boa, pra criar algo mais pop). Também gostei de “Esconderijo” que foi escolhida para ser a primeira música de trabalho e é mais lenta e pode de repente ganhar as rádios. E a única versão do disco é para “Chuck Berry Fields Forever” do Gilberto Gil, canção que ele cantou com Caetano Veloso nos Doces Bárbaros, uma ótima escolha que ficou maravilhosa na voz da cantora. De primeira ouvida gostei bastante do disco e agora finalmente posso dizer que gostei completamente da moça!
Só achei estranho aparecer tantas composições com o Arnaldo Antunes (4 no total) e nenhuma com o Nando Reis (ela chegou até a participar do disco novo dele, além disso foi anunciado durante a produção do disco que o trabalho dela contaria com composições de Nando Reis e Frejat).

Controlar o seu destino como quem re-lê um livro velho, não sei se é o melhor
Esses capitulos reais, amiga, não reprisam mais
Já passou ao vivo, em cores, em perfume e som
A vida é um pouco, uma transmissão, pra quem captar os seus sinais, pra quem for muito perspicaz
Ah, solte um pouco o freio, deixe de receio, encare mais os fatos, sirva ainda frio seu coração
Seu fogo não se espalha, excesso de razão é como opnião, se não ajuda, atrapalha.
Planejar um tipo de mentira é jogar no faz de conta de daqui a um mês, perder os créditos finais, parando pros comerciais


Essa letra acima é da nova música do Ludov chamada “Reprise”, a música foi disponibilizada para download pela própria banda (Link). Achei linda a letra quando ouvi pela primeira vez e por sorte a encontrei na comunidade da banda no orkut.
O último álbum que eles lançaram “Disco Paralelo” esperei com muita ansiedade, mas ao ouvir pela primeira vez me decepcionei. Esperava uma continuação dos anteriores, mas a banda foi no caminho contrário. O disco tinha uma melancolia nas letras e nos arranjos que me incomodaram na primeira audição, mas que depois percebi de outra forma. As letras são lindas e me lembram bastante a de “Reprise”. Acredito até que o disco novo siga um pouco a mesma linha do anterior que teve uma produção mais elaborada, buscando outras alternativas que fugiam do tradicional. E eu que nunca presto atenção em letras de músicas (me atraio sempre pelas melodias das canções) devo dizer que quando escuto Ludov sinto que é o momento de parar e escutar com atenção. Um dos trechos das canções de “Disco Paralelo” que mais me emocionaram:

Refugio: Com o passar dos anos

Eu aceito o que se diz
Sem entender por quê
É bom saber chorar pra ser feliz

Rubi: Saio à rua de manhã e me deixo levar
Assisto à profusão de cores e de sons
Quem é essa multidão?
Por que correr assim?
Ninguém aqui jamais será tão só como eu

Fugi desse país: Quem tem menos faz bem mais que nós por si
Essa cidade sempre foi nosso jardim
O que procuro já encontrei dentro de mim


domingo, 12 de julho de 2009

O Marcelo me enviou esse texto por email e achei bem legal colocar aqui. Além de falar um pouco sobre a praça Roosevelt, um lugar que tenho bastante simpatia e frequento, a reportagem afirma que o público atual da praça é atraído pelos bares e não pelos teatros, o que eu discordo um pouco. Pode haver pessoas atraídas pelos bares, mas acredito que isso ajuda os teatros, pois quem passa a frequentar a praça, acaba de alguma forma atraído pelas produções, afinal, são muitas peças de temas e horários variados. Também acho que a variedade de público é que torna a praça tão atraente e interessante.
Gostei do texto da Nina Lemos (que sempre acompanho na TPM) em que ela tira sarro desse novo público que está interessado em frequentar a praça, mas é em sua maioria desinformado. Vale dizer também que em seu texto divertido ela não poupa os atores frequentadores por mais tempo do local das observações que constatou.



A praça da balada
Casa do teatro alternativo de São Paulo desde o começo da década, praça Roosevelt, no centro, vira ponto de encontro de botequeiros; donos de teatros negam mudança de perfil
LUCAS NEVESDA REPORTAGEM LOCAL

Sete salas de espetáculo abertas em momentos diferentes dos últimos 12 anos fizeram da praça Roosevelt o QG do teatro alternativo em São Paulo. Sobretudo a partir de 2003, a calçada entre as ruas da Consolação e Nestor Pestana, no centro da cidade, foi tomada por atores, dramaturgos e diretores, que ajudaram a dissociar a área do binômio tráfico de drogas/prostituição.De dois ou três anos para cá, boêmios e botequeiros de carteirinha, mais interessados na oferta etílica do que nas peças, engrossam o movimento de ocupação da praça. Isso sugere uma possível migração de foco na área: do teatro para o "oba oba" regado a álcool dos encontros de compadres."Virou mais baladinha do que centro cultural", diz o ator e dramaturgo João Fábio Cabral, que estreou na Roosevelt em 2003. "O público se renovou nos bares, mas o que gosta de teatro não cresceu. Tem de haver bares, mas eles não devem engolir os teatros."Para a atriz e diretora Fernanda D'Umbra, figura assídua dos palcos da praça desde 2004, isso se explica porque "é mais fácil entender o que se fala numa mesa de bar do que em cena; as pessoas são preguiçosas".Na contramão, o ator, diretor e dramaturgo Mário Bortolotto, também frequentador da Roosevelt há cinco anos, é incisivo. "Se a peça é ruim ou não tem apelo de público, não é culpa do bar. Quando o entorno do teatro é chocho, acaba que as pessoas não vão ver as peças."Existem hoje na praça um café-bar e um boteco. Além disso, seis dos sete teatros servem bebidas e têm mesinhas. Os administradores das salas dizem que os bares não são sua maior fonte de receita -ela vem sobretudo da bilheteria, segundo eles.Gerente do Teatro do Ator, único sem bar, Thiago Aratteus contesta. "A bilheteria não banca a manutenção dos teatros. A taxa média de ocupação das salas é de 40% [60% a 80%, afirmam os outros empresários]. São os bares que as sustentam."Em agosto, a ala etílica da praça ganha o reforço do Rose Velt, restaurante italiano e cachaçaria que terá entre seus sócios os criadores da Cia. Os Satyros, Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez. O grupo administra dois palcos na Roosevelt, ambos com bares à porta."Cultura não é só o que se produz dentro da sala de espetáculo. Ter uma mesa na calçada faz parte do nosso projeto estético. A ideia é que esse espaço sirva de ponto de troca criativa", diz Vázquez. "Eu nunca teria um bar só pelo dinheiro. Mas não vou negar que [o faturamento] faria falta."Hugo Possolo, ator e diretor dos Parlapatões -que abriram sua sede na praça em 2006-, também faz o elogio do bar. "Não acho que o cara vá lá pela cerveja ou pela paquera. Vai para encontrar uma turma que pensa e interfere na cidade, para trocar ideias sobre um universo intelectual que não é só da arte, cobre da Parada Gay ao Sarney. Isso amplia a visão dos artistas que andam por lá.

Xerox do xerox

D'Umbra, em cartaz atualmente na Roosevelt, questiona esse alargamento de horizontes. "O que mais tem na praça é a classe [teatral] vendo a classe. A gente está ficando muito autorreferente. Há exceções, mas parece que as pessoas esqueceram que o mundo é imenso."E completa: "É uma fábrica de teatro alternativo [...] A gente está tirando xerox do xerox: não é só botar em cena uma "mina" com uma garrafa na mão e um cara falando palavrão que se vai explicar alguma coisa. É preciso que as pessoas tenham de onde ter tirado isso [...] Acho de uma importância ímpar a recuperação da praça, mas a gente não pode se iludir."Para o diretor Maurício Paroni de Castro, que estreou na praça em 2005, o aumento da circulação de pessoas por conta dos bares elitizou a área. "Os teatros passaram a ter segurança na porta, o preço do estacionamento subiu, começaram a estacionar carro na passagem dos cadeirantes. Virou uma Vila Madalena de segunda."Nos bares, a maioria dos fregueses abordados pela reportagem diz bater ponto na praça mais pela cerveja do que pelo teatro. Mesmo dentre os que moram ali, muitos afirmam frequentar mais assiduamente o circuito "off Roosevelt" do que a cena que lhes é vizinha."Depois do "boom" do teatro na praça, veio muito fanfarrão, virou modinha. Essa nova frequência vem atrás dos bares que têm teatros, e não o contrário", observa o artista plástico Felipe Aizawa, que circula pela praça há cinco anos.

"Todo ator precisa de plateia"
NINA LEMOS COLUNISTA DA FOLHA

"Você vai ao show do Bortolotto?", pergunta uma menina para outra, na calçada da praça Roosevelt, em frente ao bar dos Parlapatões, o local mais agitado do point do "povo do teatro". O Bortolotto em questão é o dramaturgo Mário Bortolotto, espécie de rei do local. Ele é um dos responsáveis pela revitalização da área e pela conversa em uma das mesas mais animadas do local, na véspera do feriado.Lá pelas 2h, com as portas fechadas, o local continua lotado. "Aqui é um "Big Brother'", explica "a atriz", que está em cartaz em um dos teatros da praça. "Sabe por que a gente frequenta os bares da Roosevelt? Porque todo ator precisa de aplauso. E aqui te aplaudem mesmo quando você está bêbada caída no chão.""O Rapper", que não é do teatro, mas frequenta a praça, faz coro. "Aqui tem mais povo do teatro, mas eles são abertos a quem é de fora, porque ator precisa de plateia."Os frequentadores da Roosevelt discordam em relação ao tamanho do "público". Há quem fale em 45% de "estrangeiros", outros apostam em 15%. Mas como se reconhece alguém que é do teatro? "Eles estarão usando roupa de brechó e tentando aparecer", diz o amigo diretor. E talvez usando acessórios exóticos, como uma cartola dourada, adereço de uma moça que ocupa uma mesa do Papo, Pinga e Petisco, que tem um boneco do Elvis na porta. Ao lado, dois homens com roupa social conversam. As calças de tergal convivem em harmonia com a cartola.Enquanto isso, o bicho continua pegando nos Parlapatões. "Aqui é o nosso "footing'", diz a atriz. E a plateia aplaude.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Som & Fúria


Lembro de ter assistido um debate sobre televisão com a presença do Marcelo Tas há um tempo atrás onde foi perguntado pra ele se existia algum canal atualmente em atividade que buscavam novas formulas e experimentações na TV. Pra surpresa de toda a platéia (que foi lá pra meter o pau na televisão sem nenhuma argumentação) ele disse que a TV Globo é um canal que experimenta bastante.
Não há como não concordar com ele. Qual canal levou uma obra de Machado de Assis com uma estética teatral e inovadora? Qual emissora colocou um casal que falava merdas e merdas (geniais!) durante 30 minutos? Não tem como discordar que durante o ano o canal experimenta novas produções, algumas boas, outras nem tão boas assim. Claro que há sempre elementos requentados em novelas, reality shows, mas se for pensar na audiência do canal, ele é o que mais se arrisca em projetos menos habituais na televisão brasileira.

A série “Som e Fúria” é um bom exemplo de experimentação. Dirigida por Fernando Meirelles a série tem uma proposta inédita, falar de teatro e mostrar todos os bastidores, mesmo se baseando em uma série canadense o projeto é muito próximo do Brasil. Assisti ontem ao episodio de estréia e achei sensacional, uma das melhores cenas foi a de um pastor que convidado para falar no velório do diretor teatral (que era gay) faz um discurso inflamado sobre como o teatro é formado por homossexuais e pervertidos, ele é tirado a força do palco, outra cena que é tão comum atualmente em qualquer produção teatral brasileira é a do patrocínio, o diretor teatral da companhia é obrigado a fazer um discurso em agradecimento aos patrocinadores rendendo uma cena constrangedora. Além disso, a série reúne um time de atores incríveis juntando nomes consagrados (Regina Case, Andréa Beltrão, Pedro Paulo Rangel, Daniel de Oliveira, Paulo Betti, Rodrigo Santoro, Dan Stulbach com atores mais vistos em publicidade (que é de onde o diretor vem e deve se lembrar dos rostos que trabalhou e agora tem a delicadeza de convidá-los para participar. Um exemplo, os dois atores que falavam sobre a Brastemp estão na série) e atores que são menos vistos em TV como Felipe Camargo, Gero Camilo e Cris Couto.
Ainda tem muito material pra ser produzido, já que a série no Canadá já está na terceira temporada, mas deve ser praticamente impossível que no Brasil a série seja esticada. Deve ser quase impossível reunir novamente todos os atores e o diretor Fernando Meirelles que já deve ter um milhão de outros projetos. O jeito é aproveitar a primeira temporada dessa série que é mais um projeto experimental e novo na TV brasileira, tomara que sirva de inspiração pros outros canais.

http://somefuria.globo.com/

terça-feira, 7 de julho de 2009

Peixes Pássaros Pessoas


Quando li algo sobre Mariana Aydar que acabava de lançar “Kavita 1” seu primeiro álbum, não esperava grande coisa. Era mais uma cantora da “nova geração” que regravou uma canção do Los Hermanos e escolheu uma clássica do repertório de Elis Regina. De cara não me chamou atenção, mas após ouvir sua desconstrução para a música “Deixa o verão” me encantei e fui atrás do CD. De cara me apaixonei pela faixa que abre o disco “Minha Missão” depois pela faixa “Zé do Caroço” um samba elegante com letra politizada de Leci Brandão (que divide os vocais com Mariana Aydar na faixa) e por fim pela composição de Chico César na canção “Prainha”. Três faixas em um CD foi de bom tamanho para que eu me simpatizasse com ela. Depois assisti ao especial “Som Brasil Caetano Veloso” em que ela desconstruiu novamente “Beleza Pura” e deu uma interpretação visceral para “Força Estranha” e me apaixonei completamente. Também reconheci sua força em uma apresentação ao vivo. Achei-a extremamente carismática e atraente no palco, dominando-o completamente e chamando a atenção do público que praticamente não conhecia seu repertório. Sempre quis encontrar uma cantora que apresentasse características fortes no palco como Gal Costa na década de 70. Colocava minhas fichas em Vanessa da Mata, mas depois de vê-la ao vivo e ver que sua voz não é tão segura quanto nos discos, acabei elegendo Mariana Aydar que tem uma atitude de palco bem próxima da saudosa Gal-Fa-Tal.

Agora ela lança o disco “Peixes, pássaros, pessoas” que diferente do disco de estréia é praticamente autoral. Não há regravações de clássicos da música brasileira. No disco novo ela se arrisca em um repertório completamente inédito repleto de boas canções. O ritmo predominante é o samba, mas misturado com outros ritmos e barulhinhos bons. Aliás, antes do disco sair haviam confirmações de que as faixas “Beleza Pura” e “Vai vadiar” de Zeca Pagodinho (que ela sempre cantava nos shows), fariam parte do novo álbum, mas pelo que parece ela decidiu investir em novidades e convidou Zeca Pagodinho para participar em uma outra música. As minhas prediletas são “Florindo”, “Palavras não Falam”, “Beleza” (que tem a participação da cantora Mayra Andrade), “Aqui em casa” (deliciosa), “Pras bandas de lá”, “Ta” (que tem uma levada de carimbó, mas com programações eletrônicas, lembrando praticamente um tecnobrega bem feito!rs) e “Peixes” (um trecho da faixa dá titulo ao disco. É a minha preferida, por tudo, letra, arranjo e principalmente interpretação. A música vai ganhando força aos poucos e cresce numa proporção absurda, é de arrepiar!).

O disco ainda conta com a participação de Lanny Gordin, guitarrista que gravou os melhores discos da carreira de Gal Costa. E aqui eu posso finalmente comprovar que existe sim uma conexão entre Gal Costa e Mariana Aydar. Sinto no disco “Peixes, pássaros, pessoas” uma mistura de Gal Tropical e Fa-tal, mas atualizada com a nova geração, repleta de compositores bacanas como Luisa Maita, Roberta Sá & Pedro Luis, Carlos Rennó e a própria Mariana Aydar e seu marido Duani, parceiro e produtor do disco.

Outra conexão entre Gal e Mariana envolve ninguém menos que Caetano Veloso. Ele que tem uma relação mais que estreita com Gal, agora nutre admiração por Mariana Aydar e fez o release do novo disco da cantora. Abaixo o que ele escreveu:



Peixes Pássaros Pessoas



"Quando ouvi o primeiro CD de Mariana Aydar (faz um ano, mais?) fiquei muito impressionado com a firmeza, a calma e a originalidade de uma jovem grande cantora dentro da tradição brasileira de cantoras grandes. O lançamento agora deste segundo álbum confirma a personalidade artística dessa paulistana com longas passagens pelo litoral Sul da Bahia.

O vínculo com o samba amadurecido e modernizado se comprova. Os ecos da infância artística no mundo do forró estão talvez mais presentes do que antes. A parceria com Duani de música e de vida traz segurança e graça a essas filiações. O encontro mágico com a caboverdiana Mayra Andrade (encontro cuja dimensão celestial pode ser vista e ouvida também no filminho disponível no YouTube das duas cantando a canção Tunuka sentadas no chão da rua de uma cidade grande) mostra o poder da musicalidade, a sutileza do processo de modernização da música brasileira e o mistério do destino da expansão lusitana pelo mundo, no nascedouro da modernidade.

Escrevo com apenas os sons das faixas desse novo disco: não recebi nem pedi ficha técnica, títulos das canções ou quaisquer créditos. Talvez esse seja o jeito certo para abordar modestamente o trabalho de uma mulher de maneiras tão diretas, de clima tão saudavelmente carnal e de pensamentos e disciplinas tão transcendentalistas.

Mariana abre o disco com um samba super-samba e o fecha com uma melodia de samba ad libitum em diálogo com guitarras (violões) em sons experimentais. Entre os dois, há xote caribeado, baladas e muito samba. Em dueto com Zeca Pagodinho, ela confessa que do samba não pode se livrar. O samba domina o álbum - sem fazer deste um disco de sambas. Pode-se dizer que assim o domina mais do que se apresentasse oficialmente como um disco de sambas: é a atração irresistível pelo samba que orienta o estilo e o repertório, não uma decisão pré-existente nesse sentido.

Há quem veja pouca importância ou novidade no aparecimento de uma geração de jovens cantoras atraídas pelo samba. Em geral, são pessoas que confundem importância com novidade - e que não sabem onde há novidade de fato. Para mim é novidade que haja Mariana, com sua voz desaforada e tranquila reafirmando a riqueza do canto das mulheres em nosso país. E que o faça de uma perspectiva naturalmente moderna e relaxadamente consciente dessa modernidade. O Brasil nunca se curará do seu antigo ensimesmamento forçando um olhar só para fora de si: se fizer assim, estará se convencendo de que o relevante é necessariamente o que passa longe de nós. Parece que instituímos o seguinte: quanto mais evidente e radical se consiga fazer parecer que essa distância é, mais relevante se prova a música produzida. O que é a consequência extrema do ensimesmamento. Meu entusiasmo com o surgimento de cantoras-cantoras, conhecedoras de como se canta em português brasileiro há décadas - e ao mesmo tempo à vontade com a música popular global - se deve à minha desconfiança em face dos que fingem só amar o que pareça inalcançável pelo Brasil. Isso pode significar apenas que não se ama nada. Mariana - como Roberta Sá, Maria Rita ou Mônica Salmaso - é uma prova de que, ao encorpar-se em sua história, a música popular brasileira se reconhece relevante para o mundo. E o mundo só dá mostras de que continuará a atentar para isso"


(Caetano Veloso)



sexta-feira, 3 de julho de 2009

Uma das fotos que tirei do projeto X-Moradia, inspirou um texto criado pelo Rodrigo. Como adorei o texto e a interpretação que ele deu para a moça sentada no sofá em meio aos pássaros, aproveito pra postar aqui também.


Psittaciforme

Joana presa em casa, na escuridão se estanca de si. Joana que mal mexe o braço direito envolto em tipóia macia de algodão. Joana que observa seus cinqüenta pássaros em seu apartamento escuro de cinqüenta metros quadrados. Essa Joana, que assim como eles não aprendeu a voar. Ela mesma, a menina-moça, tem luz azul nos olhos – reflexo da geringonça que devora no silêncio sua visão –, engole seco, mal consegue respirar. Joana acorrentada que traga suas dores sem expirar fumaça; precisa trocar os passos, calçar os sapatos, precisa voltar a andar. A menina que ao recolher migalhas rasteja pelos tacos, e prolonga os seus bits e os seus bytes, com ares de quem se deixa ao Deus-dará. Embora consciente de que o seu azul será outro, aceita a canção dedilhada que vem abrir-lhe as feridas. Sua canção é de poucos acordes, de gosto amargo e notas ébrias de blues que estranho, estranho, tem cheiro de mar. Joana sorve suas notas com fúria, sorve aos lábios secos sem distinguir cor ou sabor. Ela, que de tanto excremento dos bichos inalar já quase não sabe quais sentidos usar. Joana, que sem asas e passos sente sozinha o mistério que a acoberta, e cúmplice da noite a faz colecionar as penas, todas elas, que caem dançantes embolando o seu cabelo; ela que sozinha preenche as rachaduras do teto, entende mais que o povo da rua sobre a solidão aviária existente – “Mesmo quem voa, cai só. E só...” Joana prisioneira de si mesma, embaralha seus números, tece cordas e nós. A menina-ave que assiste à TV sem som, que prefere a canção dos alados. A ave que não se chama Joana, que não tem nome, idade, razão. Ela que sonha miúdo, que sonha acordada aspirando parágrafos, e depois implora por mais deles, mas desprovidos de repetição. Joana-menina-moça, Joana-sem-nome só quer se livrar de todo o peso daquele algodão; Joana-ave que pragueja sua tipóia e escancara as suas janelas, sem abrir os braços em cruz, sem esquecer os bits e bytes. E penas. E canção. E tacos..., os seus metros quadrados. Joana-sem-nome deseja perder as contas, quer ser passarinho. Joana, frágil Joana, que a cada manhã recolhe os seus pedaços junto à sujeira do ninho.


Já fui em show da Zélia Duncan e a conheci num momento de fúria. Depois de uma fã fazer uma brincadeira indelicada ela desceu do salto e colocou os limites que a situação pedia.
Todas as pessoas que ouviam minha história ficavam revoltadas e sempre comentavam que ela é uma pessoa pública, tem que tratar bem os fãs e etc. E tratar bem os fãs está incluso engolir sapos?
Eu a admirei mais ainda depois do episodio. Vi que ela realmente tinha personalidade, estava ali recebendo no camarim, mas que ninguém viesse com comentários que ela não quisesse ouvir, já que o espaço era dela, nós deviamos nos adaptar.

E assim eu fui começando a gostar dela. Devo confessar que pouco. Gosto muito do CD "Eu me transformo em outras" em que ela grava clássicos da música brasileira (assim como fez Gal Costa, praticamente no mesmo período). Também não achei péssima a participação dela na volta dos Mutantes, só fiquei incomodado pelo fato dela ser a amiga de Rita Lee e com a sua ida criar um conflito maior e também pelo fato do timbre vocal dela não combinar com o que estavamos acostumados a ouvir na formação original. Enfim, quando vi o show fiquei maravilhado com a performance dela, que deu bastante vigor (junto com a banda poderosa) a banda e para as músicas que cantou.

Agora estou com o disco novo nas mãos que tem como um dos produtores John Ulhoa (de quem sou fã desde que me entendo por gente). Zélia Duncan tem a inteligência de sempre estar rodeada por pessoas extremamente talentosas (Rita Lee, Mutantes, Moska, Martnália e por aí vai...) e desenvolver sempre trabalhos interessantes. No trabalho com a Simone por exemplo, que é uma cantora que eu não gosto muito, ela cantou uma versão de uma música linda do Jorge Drexler feita pelo Moska, deixando meu preconceito de lado e me fazendo fã da versão e até simpatizante da dupla. O mérito dela está em ter o bom gosto de escolher produtores, canções e arranjos.

No disco novo em que ela teve o bom gosto de escolher o John como produtor, o estilo dele está em algumas faixas ("Telhados de Paris", "Pelo Sabor do Gesto", "Boas Razões", "Tudo sobre você" - que mais parece uma canção do Pato Fu!) mas dessa vez com barulhinhos bem delicados. As versões para as canções do filme "Canções de Amor" que eu tanto temia, ficaram agradáveis e não comprometeram em nada em questão de qualidade. Fora que no Brasil quando são feitas versões o que sempre se espera é uma canção popular (que em grande parte é cafona) e Zélia Duncan foi na contramão, escolhendo um filme bem alternativo, com um tema bastante delicado costurado por canções belas. "Ambição" de Rita Lee ganhou uma nova intepretação e uma pequena mudança na letra, nada comprometedor. De novo ela foi na contramão e pegou um lado b de Rita Lee (que é algo difícil, já que Rita Lee é repleta de lado A). Essa canção eu conhecia apenas pelo CD de 1993 em que ela produziu sem o Roberto de Carvalho (num período em que estavam separados) e só agora fui descobrir que a canção já existia desde a época do Tutti-Frutti e chegou a tocar em uma novela na década de 70. Depois de anos ela pegou novamente a canção e incluiu novos versos. Outro ponto interessante do disco de Zélia envolve novamente Rita Lee. Em uma das canções "Esporte Fino Confortável" dedicada a Rita Lee no encarte, ela canta que "Tô na geladeira...pra sempre?E aí, amizade, a nossa amizade,como é que se sente?" lembrando que ainda devem surgir mágoas de Rita Lee depois que Zélia entrou para os Mutantes. Zélia Duncan chegou até entrar em detalhes sobre a questão quando Rita Lee foi capa da Rolling Stone, dizendo que depois de sua participação no grupo Rita Lee não retornava mais quando ela tentava entrar em contato. Agora, depois de ouvir a música é de se esperar e torcer que a amizade volte fortalecida e renda bons frutos ("Pagu" por exemplo, uma das melhores canções de Rita Lee nos últimos tempos é uma parceria com Zélia Duncan).

Pra finalizar, acho que falar de Zélia Duncan é sempre citar quem está em sua volta, portanto, não tem como uma trabalho seu ser desinteressante. "Pelo sabor do gesto" é cheio de referências, versões originais, parcerias e histórias em suas composições. Mesmo não gostando da Zélia Duncan, é impossível não gostar do disco.

Link "Pelo Sabor do Gesto"